quarta-feira, 18 de julho de 2012

A suposta existência - Drummond





"Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?

O interior do apartamente desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?

Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia
o serão?

Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?

Concretitude das coisas: falácia
de olhar enganador, ouvido falso, mão que brinca de pegar o não
e pegando concede-lhe
a ilusão da forma
e, ilusão maior, a de sentido?

Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibilíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-se
e fruir peripécias de passagem?

Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.

Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.

A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta
ao sol do dia curto em que lutamos."

domingo, 15 de julho de 2012

O outro - Chacal



"só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro" 



domingo, 6 de maio de 2012

Aqui, de novo



 


"Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, 
E aqui tornei a voltar, e a voltar. 
E aqui de novo tornei a voltar? 
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, 
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, 
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim? 

Outra vez te revejo, 
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.  

(..)

Outra vez te revejo, 
Mas, ai, a mim não me revejo! 
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, 
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim." Fernando Pessoa

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Questione



"Tudo aquilo em que cremos nos controla. Se o que você crê é saudável, tal crença o
ajudará. Mas se o que você crê é destrutivo, tal crença o algemará. Desse modo, usei a
arte da dúvida para questionar tudo aquilo que doentiamente me controlava, como
pensamentos angustiantes, as imagens irreais, as ideias de perseguição. Quem despreza
a dúvida paralisa sua inteligência." Augusto Cury

Metamorfose

estúdio de design Taylor James

"Não me envergonho de mudar de opinião, da mesma forma que não me envergonho de pensar" Pascal

sábado, 12 de novembro de 2011

Exercício lógico


"O mundo foi criado de repente, mas de tal maneira como se fruto de longa evolução. Não há impossibilidade lógica a esta opinião. E, igualmente, não há impossibilidade lógica à opinião segundo a qual o mundo foi criado cinco minutos atrás, cheio de memórias e registros. Talvez pareça uma hipótese improvável, mas não refutável logicamente." Bertrand Russell

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

"Nós, os amorfos"

"Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, com bens na
Inglaterra ou Suíça e o chefe Socialista da aldeia - não há diferença de qualidade mas
apenas de quantidade. Abaixo [...] destes, nós, os amorfos..." (Fernando Pessoa)